O que vos escrevo é um relato. Antecipo que a veracidade dos acontecimentos me conduziu a compartilhá-los com vocês.
Sob a ótica descrente e retalhada em
perguntas sem respostas, todos os dogmas que um dia professei diante da
precipitada fé, foram por mim renegados. Em meio à perguntas sem
respostas, concluí que não se pode professar uma crença sem compreender a
luz da sua essência.
Guirlanda de sentimentos... me declaro
atéia e de repente questiono a possibilidade de termos evoluído. Antes
da vida, o universo. Anterior ao universo? O mistério... que rege a
ótica cósmica da existência. É um paradoxo, diante da pluralidade, do
sincretismo religioso; não sermos influênciados pelas questões
culturais. O cientificismo é um grande aliado no processo de decisão
quando se há liberdade de analisarmos criticamente com base em critérios
voltados para o auto - conhecimento. Uma proposta disciplinar para o
sistema educacional se debruçar, seria a possibilidade do estudo das
religiões associado ao estudo da Ética e Cidadania.
Ontem acordei com vontade de ler a
bíblia, com vontade de me aproximar do criador ou pelo menos dessa
crença de que somos criaturas. Findei me perdendo na escuridão
antropocêntrica tal qual o homem do período barroco. O conflito mais
obtuso que me leva a negar Deus e ao mesmo tempo não acreditar numa
teoria qualquer... Seríamos frutos do Big Ban? Frutos uma geração
expontânea? Seríamos um delírio da mente, uma espécie de ser que precisa
ser ameaçada, com o enxofre do inferno e poeiras de maldição, para
amarmos uns aos outros e vivermos sob o teto do amor altruísta-cristão?
Saí de casa pensando em ir ao cinema.
Almocei com a mesma pessoa que guardou na mochila a bíblia Almeida com
capa rosa e desenho de folhas de outono que comprei emocionada. Me
permitam descrever tal momento.
Entrei numa loja evangélica em busca da bíblia Almeida. Me deparei com uma bíblia preta, grandes letras, porém sem o menor traço de feminilidade. Vi algumas de capa dura, cor de rosa etc, nenhuma me agradou. Percebendo o desdém declarado, a vendedora me trouxe mais três modelos. Não hesitei, diante de um exemplar cuja capa é rosa, com zíper e folhas de outono em sua face emborrachada. Me emocionei até.
Entrei numa loja evangélica em busca da bíblia Almeida. Me deparei com uma bíblia preta, grandes letras, porém sem o menor traço de feminilidade. Vi algumas de capa dura, cor de rosa etc, nenhuma me agradou. Percebendo o desdém declarado, a vendedora me trouxe mais três modelos. Não hesitei, diante de um exemplar cuja capa é rosa, com zíper e folhas de outono em sua face emborrachada. Me emocionei até.
Após almoçar atinei que havia deixado na
mochila de quem se despediu de mim e após telefonema me informou a
impossibilidade de devolver o esquecimento naquele dia. Pois bem, adiei a
leitura da bíblia insatisfeita. Segui apressada me dirigindo à uma
livraria em busca do Livro das Virtudes de William
J. Bennet. Diante do preço imposto... optei por outras leituras.
Comprei dois livros de Huberto Rohden. Em Comunhão com Deus e A Mensagem
Viva do Cristo. Antes disso passei por uma igreja evangélica. Lá
chegando, notei que as pessoas saíam e confirmei... o culto havia
encerrado. Queria conversar com algum líder religioso. Findei, já no
coletivo, passando por uma igreja católica. Levantei hesitante,
sinalizei que desceria, mas o
motorista não abriu. Desisti... não estava convicta. Um jovem, ao me
observar sem que eu notasse, gritou insistente até que o ônibus, já em
movimento, parou.
Subi as escadas sem ouvir claramente o
que o padre dizia. Ao pôr os pés dentro da igreja ele concluia uma
passagem sobre o deserto. Fiquei algum tempo em pé, sacristia cheia. Me
trouxeram uma cadeira, esperei que fosse posta num local, por essa mesma
pessoa, determinado. Me sentia pouco à vontade. Sentei ao lado de um
senhor muito simpático, porém notei que, entre ele e as demais pessoas,
havia uma pilastra. Exalava um certo odor, inicialmente me irritei.
Escutava o sermão indignada. Pensei: nunca venho à igreja, quantos anos
fazem que reneguei o catolicismo? Até que lembrei da Madre Teresa de
Calcutá. Compreendi e ao invés de querer sair dali me aproximei daquele
ancião que se revelou um anfitrião.
Durante os ritos não participei plenamente. Às vezes levantava, às vezes não. Na hora de saudarmos uns aos outros, ele foi o primeiro a me estender a mão. - A paz de Cristo, disse ele. Respondi meneando a cabeça. Na hora de receber a hóstia, levantou sorridente. Ao chegar me disse afetuosamente querendo me convidar a fazê- lo também: fui comungar com Cristo. Aquelas palavras me levaram a concordar com a voz íntima que me convencia a fazer uma experiência mesmo sem ter fé, mesmo sem ter me confessado à Deus, quiçá ao padre. Eu que fui batizada e catequizada e depois reneguei a fé, caminhei à caminho da hóstia sagrada. À caminho do corpo de Cristo e pensei: se não estou em comunhão com ele, acredito que de algum modo ele estará dentro de mim.
Um pouco nervosa, como se confessasse naquele momento o meu pecado, olhei nos olhos do padre e agradeci com um tímido obrigada. Agradeci como quem agradece ao ser perdoado por alguém que desconhece a angústia de se sentir excomungado da sociedade e do reino de um Deus que nem sei se acredito, mas que um dia acreditei. Me perguntei o que fazia ali. Por instantes observei o menino, segurava a bandeja refletindo tal qual um espelho diante da inocência. Parei naquele momento. Saí com a hóstia na mão, fugindo do menino, do padre e de mim mesma. Um conflito sanado no céu da boca. Grudou ali feito carne, até dissolver. Restando uma parte, empurrei com a língua, querendo pôr ao fim a imagem da hóstia.
Durante os ritos não participei plenamente. Às vezes levantava, às vezes não. Na hora de saudarmos uns aos outros, ele foi o primeiro a me estender a mão. - A paz de Cristo, disse ele. Respondi meneando a cabeça. Na hora de receber a hóstia, levantou sorridente. Ao chegar me disse afetuosamente querendo me convidar a fazê- lo também: fui comungar com Cristo. Aquelas palavras me levaram a concordar com a voz íntima que me convencia a fazer uma experiência mesmo sem ter fé, mesmo sem ter me confessado à Deus, quiçá ao padre. Eu que fui batizada e catequizada e depois reneguei a fé, caminhei à caminho da hóstia sagrada. À caminho do corpo de Cristo e pensei: se não estou em comunhão com ele, acredito que de algum modo ele estará dentro de mim.
Um pouco nervosa, como se confessasse naquele momento o meu pecado, olhei nos olhos do padre e agradeci com um tímido obrigada. Agradeci como quem agradece ao ser perdoado por alguém que desconhece a angústia de se sentir excomungado da sociedade e do reino de um Deus que nem sei se acredito, mas que um dia acreditei. Me perguntei o que fazia ali. Por instantes observei o menino, segurava a bandeja refletindo tal qual um espelho diante da inocência. Parei naquele momento. Saí com a hóstia na mão, fugindo do menino, do padre e de mim mesma. Um conflito sanado no céu da boca. Grudou ali feito carne, até dissolver. Restando uma parte, empurrei com a língua, querendo pôr ao fim a imagem da hóstia.
Regressando, me sentei ao lado do tal
senhor. Ajoelhada encostei a cabeça nas costas da cadeira e senti
umidade no olhar. De olhos fechados não falei com Deus, seria hipócrita
de minha parte dizer que dali em diante me tornaria Cristã movida pela
cegueira de uma súbia fé. Nem mesmo conheço a biografia de Jesus. Pedi
um sinal, pedi perdão pela minha insignificância de ser pedra, pó.
Agradeci a existência da minha alma, agradeci por não ser eterna.
Ao me despedir da catedral, atravessando a estrada de Belém, me deparei com tal árvore, o mar vermelho e com a surpresa de ter tantas vezes passado por ali e só ter visto a arte, recente, naquele momento.
Agradeço aos leitores que me acompanharam até o final.
De agora em diante me chamo Ácácia Estrada (de Belém).


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